Depois de ler o artigo de hoje do Eduardo Lourenço no Público Europa via Bagdad
To Foreign Lands
I HEARD that you ask'd for something to prove this puzzle the New
World,
And to define America, her athletic Democracy,
Therefore I send you my poems that you behold in them what you
wanted.
A colecção Cantos da Terra, da etiqueta Alpha, dedicada às músicas da tradição oral, tem sido fonte de numerosas e agradáveis surpresas. Desta feita, o agrupamento Les Witches recriou com um brilho admirável uma série de danças e melodias do período isabelino, na sua maioria extraídas da colecção de John Playford "The English Dancing Master - Plaine and Easie Rules for the Dancing of Country Dances, with the Tune to each Dance" (Londres, 1651), Uma das principais fontes históricas relativa às danças renascentistas e do primeiro barroco, a obra foi concebida como uma espécie de auxiliar de memória para bailarinos e músicos, contendo indicações coreográficas alusivas a uma enorme quantidade de danças de carácter popular e constituindo, simultaneamente, um dos conjuntos mais ricos de melodias inglesas do século XVII. Estas foram harmonizadas pelos próprios instrumentistas de Les Witches - na época, estas eram apenas uma base para improvisações e variações infinitas que não se escreviam na partitura -, recorrendo quer a práticas históricas de diminuição, ornamentação e glosa, quer a influências da música tradicional (a marca da música irlandesa é bastante notória em vários trechos). Com títulos tão misteriosos ou sugestivos como "Nobody's Jig Mr, Lane's MagottÉ", "Virgin Quenn, Bobbing Joe", "Sheperd's Holliday" ou "Paul's Steeple" transportam-nos aos bailes de camponeses, aos serões das tabernas ou às faustosas festas da corte de Isabel I. Para a interpretação, optou-se por um "Broken Consort" (conjunto formado por instrumentos de famílias diferentes), com uma constituição apoiada em fontes literárias e na iconografia da época: flauta, alaúde, cravo, violino e viola da gamba (ocasionalmente também o cistre). O resultado é de uma incrível vivacidade e espontaneidade colocando-nos a meio caminho entre a música antiga, a música tradicional ou mesmo o jazz, pela forte componente de improvisação sobre modelos melódicos ou estruturas harmónicas. É também uma prova da crescente versatilidade de instrumentistas tradicionalmente vinculados ao repertório anterior ao século XVIII e da quebra de barreiras entre os géneros.
Conferência/debate sobre a clonagem, inserida na iniciativa Um Embrião de Cultura Científica.
Depois de uma apresentação do tema por um especialista, e do debate entre algumas personalidades da área, os presentes podem levantar questões e deixar testemunhos.
Na mesa estarão João Ramalho Santos (Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra), Mário Sousa (Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar) e Teresa Almeida Santos (Serviço de Genética Médica, Hospitais da Universidade de Coimbra). A moderar estará Vítor Malheiros, do jornal Público.
A sessão decorre no dia 8 de Fevereiro, às 16 horas, na Casa Municipal da Cultura.
Local-Sala Polivalente da Casa Municipal da Cultura - Coimbra
Sacrifício de Tarkovski hoje na Cinemateca às 19h00
22 November 1983, San Gregorio [...] The Sacrifice.
Think about the rhythm. Do not allow the scenes already shot to mislead. Build the film's rhythm in advance. It is rhythm that sets the dramaturgy in film, in contradistinction to literature and drama.
23 November, San Gregorio We stayed in England for almost two months. The rehearsals took one month. My work with Claudio Abbado went well and we parted as friends. The cast members were very good. The characters of the drama fit the actors perfectly. The production manager Jeff Phillips did a wonderful job.
Stephen Lawless ? the assistant ? and Irina Brown were very good. It was not so good with Dvigubsky. He spent a lot of money quite unnecessarily but couldn't provide what was most important. He had promised to polish up the production and all the elements that still needed it and had been telling the theatre staff the work was almost finished. [...]
In London I became closely acquainted with André Engel to whom I spoke rather coolly in Cannes. It turns out he is a very nice man. When I asked him why he distributed my films, as they were not very profitable, he responded that I was his "holy cow." This was very nice.
England is quiet, majestic, and homely. We didn't feel like leaving at all. New acquaintances, friends, new opportunities. [...]
In London I saw Anna-Lena who is very enthusiastic and although she has faith in Hamlet, she proposes to start working on The Sacrifice. She said she would be in Rome on the 28th. [...]
24 November, Thursday, San Gregorio I began The Sacrifice yesterday. I worked on it a bit but the result is rather mediocre. I'm overexcited. Not much has cleared up. Eternal Return as the title? I cannot at all find the story with the dwarf in Thus Spake Zarathustra. Found it.
What is artistic creation? Conviction. And if it is conviction it means it is accompanied by errors. If errors then ? does this indicate falseness? No, firstly, errors do not always indicate falseness, and secondly, why avoid errors if art utilises not truth, not essence, but an image of truth, an image of essence. [...]
5 December, San Gregorio [...] Anna-Lena Wibom was in Rome, we talked about directing. We agreed the screenplay would be ready by the end of January and I'd begin shooting in June. I told her about Sven Nykvist and Erland Josephson. [...]
9 December, San Gregorio Larissa telephoned Moscow yesterday and is very upset: Andryusha cries after every call. God, those bastards!
Franco told us yesterday it might be worthwhile to speak with Berlinguer. The risk is small. After all, regardless of the conflict between us and Moscow, they meet all the time, they depend on each other so to speak.
I'm tired. Difficult days!!!
If Yermash does not show up in the next few days with an offer to discuss things I shall have to inform the embassy that I'm requesting political asylum, and prepare everything.
7 January 1984, Tuesday, San Gregorio The Sacrifice.
For the dream sequence (which may be entirely rewritten). The last shot from a close-up of Alexander bundled up in something (a coat?) to a long shot: the field, the grass, an extraordinary pearly light. The far reaches of the horizon and the sky dissolving into the mist. It turns out Alexander is on a cart on which a woman is sitting (with her back turned) dressed in white and driving him away toward the horizon. Crane. A long shot. Perhaps the only colour shot in the film. First a close-up of Alexander then a pan across the ruins where objects he knew have burnt, or their remnants to be exact, then the cart, etc.
The sound of a motorcycle passing nearby (the family is sitting at the table).
...
Um documentário importante sobre o cinema directo
Este é um documentário de última geração no qual a presença dos dispositivos da televisão é evidente.
Num trabalho anterior, Manufacturing Consent, Wintonick dera conta do pensamento do linguista e activista Noam Chomsky no que diz respeito aos meios de comunicação social.
Em Cinéma - Vérité o realizador canadiano volta à questão dos media para reflectir sobre o cinema directo. O filme tem inestimável valor documental, uma vez que recolhe ou recupera testemunhos de praticamente todos os principais protagonistas do movimento.
A título meramente exemplificativo é possível ver e ouvir Cartier Bresson, Albert Maysles, Richard Leacock, Jean Rouch, Karel Reisz, Frederick Wiseman e muitos outros, bem como ver cenas de muitos dos filmes que, neste contexto, fizeram história. A partir de Cinema - Vérité, e dado o intuito pedagógico que também preside à Odisseia nas Imagens, será posível um melhor entendimento de filmes que se seguem como Chronique d´un Été, de Jean Rouch e Edgar Morin ou Basic Training, de Frederick Wiseman.
Depoimento de Amir Labaki.
Domingo à 1h00 (péssimo horário!) na rtp2
Realização: Peter Wintonick
Produção: Éric Michel, Sally Bochner, Adam Symansky e Kirwan Cox
Duração: 103 m
A tradução e introdução são do António Mega Ferreira e ele sintetiza bem a obra: “Os homens stendhalianos nunca fazem o que dizem; as suas mulheres nunca dizem tudo o que são capazes de fazer. Os homens entretêm-se a dar cabo das suas reduzidas hipóteses de felicidade, afogando-se na luta cega por um ideal ou, o que é ainda pior, entregando-se ao fatalismo que deles faz títeres nas mãos das mulheres. Mas estas movem montanhas por um objectivo, e esse fim último há-de ser sempre o horizonte da sua demência; Vanina não escapa ao protótipo stendhaliano, mas às virtudes tradicionais (a astúcia, a coragem, a devoção, o sentido prático) esta bela romana junta o orgulho e a amoralidade – e o perfume da traição. É irresistível.”
quinta-feira, fevereiro 06, 2003
A Verdade, afinal, existe: é sobreviver.
«Estaremos destinados a ser apenas começos de verdade?» (René Char)
posted by Anónimo on 22:54
2 fábulas para adultos:
A ratazana sagaz
Uma Ratazana que se preparava para sair do buraco vislumbrou um Gato nas imediações. Descendo novamente ao ninho, convidou uma Amiga a acompanhá-la numa visita a uma arca de milho próxima.
– Estava para ir sozinha – disse a Ratazana–, mas não podia privar-me do prazer de tão distinta companhia.
– Muito bem – disse a Amiga –, irei contigo. Segue em frente.
– À frente? – exclamou a outra. – O quê? Eu a preceder uma ilustre e magnânime ratazana como tu? De modo algum! Vós primeiro, senhora, vós primeiro.
Agradada com tanta deferência, a Amiga seguiu na frente e, saindo do buraco primeiro, foi apanhada pelo Gato, que logo se afastou com ela na boca. A outra pôde então sair sem ser molestada.
A cigarra e a formiga
Num dia de inverno uma Cigarra esfomeada pediu a uma Formiga um pouco da comida que esta tinha armazando.
– O quê? – disse a Formiga – Não trataste de armazenar alguma comida para ti, em vez de estares sempre a cantar?
– Assim fiz – respondeu a Cigarra –, assim fiz; mas as tuas amigas entraram por minha casa adentro e levaram-ma toda.
Cheguei agora mesmo do rivoli. Uma boa surpresa, Os Carabineiros de Jean-Luc Godard.
Algures, dois camponeses estúpidos e brutos (e com nomes desfazados) Ulysses e Michel-Ange são mobilizados pelos carabineiros para a guerra.
É lhes prometido tudo, num diálogo cínico e profundo. Eles partem e fazem o que têm de fazer: matam, violam, matam, divertem-se, matam, vão ao cinema, matam…
Há um bela cena no cinema quando o soldado tenta espreitar, por detrás da tela, a rapariga nua na banheira; há uma rapariga que recita frases de Lenine e fábulas de Maiakovsy; e as raparigas são todas bonitas, logo: é mesmo um filme do Godard.
Quando regressam, os soldados trazem às suas mulheres, Vénus e Cleopatra o mundo enquadrado em postais: as belezas naturais, os monumentos, os meios de transporte. Hilariante!
O filme é de 1963 e parece que na época não agradou nem à crítica nem ao público, diziam que ele era sujo e estúpido.
Godard respondeu que: “em relação à guerra, segui uma regra muito simples. Quis explicar às crianças não apenas o que é a guerra mas também o que têm sido desde as bárbaras invasões da Coreia ou da Algéria”.
Muito apropriado.
O ciclo continua. Amanhã passa (às 19h30) Onde Jaz o teu sorriso? o filme que o Pedro Costa fez sobre Danièle Huillet e Jean-Marie Straub durante a rodagem de Sicília. Fica o resumo do programa:
Há aqueles que se colam à realidade e não usam aí a sua imaginação, a sua limitada imaginação de criaturas limitadas… E há também aqueles que distorcem a realidade em nome da chamada riqueza da sua imaginação. O resultado, e isto é controverso, é que a imaginação é muito mais limitada no trabalho da segunda família do que no da primeira. Primeiro porque os da segunda família têm menos paciência, e como alguém disse, o génio não é mais do que muita paciência… Porque se se tiver muita paciência, esta estará, ao mesmo tempo, carregada de contradições. De outro modo, ela não terá tempo de se carregar. A paciência duradoura é, necessariamente, carregada de ternura e violência. A paciência impaciente só está carregada de impaciência. O belo Outono está de volta.
posted by Anónimo on 22:06
“Os sonhos são muito importantes no meu trabalho”
Entrevista com Jorge Molder
“Circunstâncias atenuantes” é o mais recente trabalho de Jorge Molder, e a inauguração da exposição marca a abertura, hoje, do primeiro espaço próprio da Galeria Lisboa 20, em Campo de Ourique, que até agora expusera em espaços avulsos.
O ponto de partida da série, onde Molder se reitera como modelo, é um filme realizado no ano em que nasceu, 1947, e que origina a primeira das duas séries que poderemos ver, a partir de amanhã. São imagens em zinco, derivadas de fragmentos de composição que Molder encontrou nesse filme e que descobriu pertencerem ao seu universo de imagens. Nos retratos, a sua figura encena-se em contiguidade com essas imagens, num processo de representação onde o sentimento de estranheza do Eu, a relação aos outros e o trabalho sobre a (des)figura tomam novos caminhos.
Público – Continua a perseguir a sua imagem?... Jorge Molder – Sim, não nas imagens de zinco que se filiam no filme, mas nas outras que fiz a partir destas.
Há anos que trabalha com a sua imagem. Como parte para cada nova série? Não há uma regra, porque estamos a falar de criação de imagens, que no meu caso não obedece a um plano cerebral. São circunstâncias completamente insignificantes. Uma pessoa está num restaurante, e há alguém que faz um gesto, e esse gesto para mim tem significado. E também não há uma hierarquia de importância nas vivências, não há umas mais importantes do que outras. Os sonhos são muito importantes no meu trabalho, inspiram-me muitas ideias.
Porque lhe permitem trabalhar a fronteira entre o interior e o exterior? Sim, o sonho é importante mas também a insónia. Há muitos anos que tenho grandes insónias, e às vezes, durante as insónias, a mente vai divagando e de repente surgem coisas. Até é vulgar eu levantar-me e ir tirar pequenas notas.
O Francis Bacon falava de “acidentes”. Esta palavra diz-lhe alguma coisa? Muito. E os desvios. As coisas que uma pessoa começa e a certa altura há um certo número de ocorrências que me levam num sentido que eu não estava à espera. Eu ontem estava a pensar na obra de Pistoletto e a reparar como ele – que era um grande admirador de Bacon – começou aqueles homens negros, muito brilhantes, cheios de reflexo, e começou a usar vidro; depois salta daí para o espelho, e constrói toda a carreira dele em torno deste último. São relações de contiguidade que tornam possível esta deriva... Para mim, o acidente é uma questão técnica; ao princípio não, mas agora é como se uma pessoa já estivesse atenta a qualquer coisa que possa acontecer, mesmo ao nível da impressão, e que nos leva para um sítio diferente.
Em várias entrevistas, sublinha que não são bem auto-retratos. São o quê? Eu reconheço algumas coisas, por exemplo a passagem do tempo sobre mim, mas não são um trabalho de pesquisa interior, de auto-conhecimento. Tenho pensado muito sobre essa questão, e chego à conclusão é de que são retratos... Embora eu já tenha feito auto-retratos “tout cour”, muitos, sobretudo nos anos 80.
Mas com esses “retratos”, de que é o único modelo, pretende refletir problemáticas de identidade? Não. Mas de certa forma reflete a ambiguidade interna, uma certa duplicidade que faz parte de nós. Mas a questão da relação aos outros, do modo como nos colocamos no meio dos outros, é muito importante. Aliás, o título desta exposição chama-se precisamente “Circunstâncias atenuantes”, tem a ver com isso.
Identifica-se com o tema do duplo? A questão da duplicação, da multiplicação, a mim interessa-se imenso, porque a fotografia tem desde logo a ver com isso. Há sempre uma duplicidade entre aquilo que a nossa cabeça está a pensar fazer e aquilo que os nossos olhos vêem.
Tem consciência do sentido dessa multiplicação, de onde quer chegar? O sentido disso tudo é sempre em aberto... Não gostaria de responder a essa pergunta, acho que não posso. Mas lembra-me o romance do Gombrovitz, o “Cosmos”, no qual o centro de tudo é aquela investigação sobre o pardal enforcado, embora aí o final seja um bocado perigoso, mas é o acento na demarque, no processo de perseguição da ideia, que me interessa.
Um interesse pela forma? De forma alguma. Não consigo compreender essa distinção, e às vezes há formalismos que me irritam mesmo. Eu por exemplo, gosto muito do Mondrian, mas depois há outros que tenho dificuldade em entender.
Sente alguma influência no seu trabalho? Muita coisa, mas nada que tenha a ver necessariamente com fotografia nem com artes. Gosto dos campos de Zurique.
"Quando Deleuze fala da obra de Francis Bacon, em Francis Bacon, Logique de la Sensation, utiliza uma expressão que parece ajustar-se perfeitamente à pintura em geral e à de Paula Rego, numa concentração intensa: "não se trata de reproduzir ou de inventar formas, mas de captar forças." (sublinhado meu). E, ainda que a expressão possa aparentar-se com um lugar comum, o certo é que, ao olhar-se a pintura de Paula Rego, o incómodo e a inquietante presença dessas forças actuantes activa-se, sob o olhar do espectador mais desprevenido. As suas figuras são grosseiras e, não raro, grotescas, pois é no campo de uma indecibilidade entre o humano e o animal que elas emergem, na maioria das vezes, configurando-se como seres habitados por uma espantosa força sexual."
Litografias do pintor russo na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva até 13 de Abril
"Paris através da janela", um dos muitos quadros de Chagall em que a capital francesa é a personagem principal
"Marc Chagall - Obra Gravada de 1951 a 1964" é uma exposição que reúne 59 litografias realizadas pelo pintor russo durante esse período, mas que inclui ainda edições originais das ilustrações que fez para livros, para além de monografias e catálogos. A mostra reúne parte da colecção da Fundação Maeght, instituição fundada por Aimé Maeght, galerista e editor das obras de Chagall.
"Desde a minha tenra juventude, fiquei fascinado com a Bíblia. Ela sempre me pareceu - e ainda me parece - a maior fonte de inspiração poética de todos os tempos. Desde então, procurei o seu reflexo na vida e na arte".
Com estas palavras, Marc Chagall caracteriza parte da sua obra, muito influenciada pelo imaginário religioso. Uma influência que se reflecte não só na pintura, como se consubstancia em obras expressamente realizadas para catedrais ou sinagogas.
Nascido na Rússia em 1887, no seio de uma comunidade judaica, Marc Chagall foi um artista de múltiplos talentos - trabalhou com pintura, escultura, aprendeu as técnicas de gravação, elaborou vitrais, dedicou-se à ilustração de obras literárias, incluindo a Bíblia. Não deixa de ser curioso o facto de ser o livro sagrado dos católicos uma das fontes primordiais de inspiração de um judeu, o que só vem reforçar o carácter ecléctico de toda a sua obra.
"Não é possível inserir a obra de Chagall em nenhum dos movimentos artísticos da primeira metade do século XX. A sua pintura é intemporal, feita de sonhos e irrealidades, plena de poesia, bem características da sua origem eslava e judia", escreve o director da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, José Sommer Ribeiro, no catálogo bilingue da exposição.
Na obra de Chagall reconhece-se, no entanto, a influência do expressionismo, do cubismo e do fauvismo - tendência estética dos finais do século XIX que procurou explorar ao máximo a expressividade das cores na representação pictórica e que teve como precursores Paul Gauguin e Vincent Van Gogh.
Além das 59 litografias, entre as quais Les amoureux, de 1951, Couple Ocre, de 1952, Nu dans la fenêtre, de 1953-54, Notre-Dame en gris, de 1955, Derrière le miroir, de 1964, serão expostas as edições originais ilustradas por Chagall para de "Et sur la terre...", de André Malraux e "Celui qui dit les choses sans rien dire", de Louis Aragon.
Conforme se pode ler no site da na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, a obra gráfica apresentada faz parte da colecção da Fundação Maeght - instituição fundada por Aimé Maeght, galerista e editor de Chagall - e representa um "importante trabalho realizado por um dos grandes pintores do século XX numa esfera mais confidencial, mas todavia muito significativa da sua obra" que "permite ter um contacto mais próximo, mais secreto também, com o percurso deste artista".
O charme discreto da burguesia teve o galardão máximo do cinema, o "oscar" para o melhor filme estrangeiro, concedido pela Academia Americana. Eis como Buñuel conta a coisa (no livro "O meu último suspiro"):
Quando o filme foi nominated ou seja seleccionado para os "oscares" de Hollywood (...) quatro jornalistas mexicanos que eu conhecia conseguiram localizar-me e vieram almoçar ao restaurante El Paular. Durante o almoço, fizeram-me perguntas e tomaram notas. Evidentemente, não deixaram de me perguntar:
– Don Luis, pensa que vai ganhar o "oscar"?
– Com certeza, respondi-lhes com o ar mais sério do mundo. Já paguei os 25 000 dólares que me pediram. Os americanos têm muitos defeitos, mas são homens de palavra.
Os mexicanos tomaram-me à letra. Quatro dias depois, os jornais mexicanos anunciam que comprei o "oscar" por 25 000 dólares. Escândalo em Los Angeles, telex atrás de telex. Silberman chega de Paris muito chateado e pergunta-me que bicho me mordeu. Respondi-lhe que tinha sido uma brincadeira inocente.
As coisas acabaram por se acalmar. Passam três semanas e o filme ganhou o "oscar". O que me permite confirmar: Os americanos têm muitos defeitos mas são homens de palavra
posted by Anónimo on 21:10
O charme discreto da burguesia
de Luis Buñuel
no próximo sábado,dia 8 às 21h30 no rivoli PA
Integrado no ciclo Facas, Martelos, Canhões , Dinamite
Os avisos vêm no material de promoção e vão constar nos bilhetes do espectáculo "XXX", do grupo catalão La Fura Dels Baus, que o Centro Cultural de Belém acolhe entre 3 e 8 de Março: "Interdito a menores de 18 anos. Contém cenas de sexo explícito que podem ferir a sua sensibilidade."
Mas desengane-se quem pensa ir ver sexo ao vivo: o CCB não vai ter um espectáculo pornográfico, garante Francisco Motta Veiga, administrador com o pelouro cultural, que aluga o Grande Auditório à produtora Mandrake.
"Recuso totalmente a ideia de que há pornografia no espectáculo", diz Motta Veiga. "Há erotismo, que é um elemento saudável da vida." As garantias vêm de um grupo "de grande nível que tem apoios ministeriais". E acrescenta: "Compete-nos cumprir as regras legais relativamente aos avisos."
Os Fura apresentaram no CCB, em 1998, "F@usto versíon 3.0", já estiveram diversas vezes em Portugal e são conhecidos pelas suas produções provocadoras que apelam à participação do público.
"XXX", adaptação de "A Filosofia na Alcova" (1795), do Marquês de Sade, é apresentado como um espectáculo de teatro digital que "rompe com a hierarquia sexual imperante". É a história da iniciação sexual de uma jovem, Eugénie, que se entrega à libertinagem e perde os preconceitos. Os Fura resgatam da obra de Sade as personagens Madame Lula (aqui uma estrela de porno), Dolmancé (homossexual perverso) e Giovanni (hipócrita politicamente correcto).
Segundo o "El País", o público do Teatro Lorca, perto de Murcia, onde estreou, não ficou escandalizado com "o sexo mais ou menos explícito". Valentina Carrasco, assistente de direcção do espectáculo, diz: "Nas imagens vídeo há cenas de sexo mas mostramo-las de uma maneira diferente da que aparece nos filmes pornográficos. A finalidade é artística." Esclarece que não há cenas de sexo ao vivo em palco, mas admite que há momentos ambíguos onde espectador se pode sentir confuso. No entanto, "nunca se fica com a sensação de que se viu sexo no palco mas de que se assistiu a um truque muito bem feito."
O objectivo "é provocar a reflexão sobre certos princípios que não têm só a ver com a sexualidade mas sobretudo com a liberdade, criando emoções e tirando o espectador do seu lugar seguro." Acrescenta: "Há cenas que podem chocar, como há quem se possa chocar com a obra de Sade."
Em Espanha, diz, a recepção do público tem sido melhor do que previam, mesmo em cidades pequenas. Nesta produção, os Fura integram espectadores voluntários em algumas cenas de "XXX". Serão escolhidas as quatro pessoas que tiverem registado as fantasias mais libertinas na sua página de Internet. "XXX" segue para o Coliseu do Porto a 12 e 13 de Março.
O número 6 da Ficções começa com um pequeno conto filosófico de Voltaire, História de um Bom Brâmane, sobre a paradoxal relação entre a sabedoria e a felicidade. Do Conde de Ficalho, botânico, poeta, ficcionista, cientista e professor, biógrafo e historiador, companheiro de Eça de Queirós nos “Vencidos da Vida”, inclui-se o clássico e esquecido A Caçada do Malhadeiro. Grande retrato de personagem é o conto satírico O Pelicano de Edith Wharton. Contista e romancista americana nascida em Nova Iorque, que se estabeleceu e morreu em França, Wharton é exemplar no tratamento da sociedade doméstica sua contemporânea – dos interiores nova iorquinos às agruras doces do exílio europeu, tudo é matéria para o seu imenso talento contístico. De Franz Kafka, em nova tradução de Manuel Resende, temos a Memória do Caminho de Ferro de Kalda, conto incompleto que faz parte do Diário de 1914. Em tradução de Luísa Costa Gomes inclui-se ainda o conto de Vladímir Nabókov, Chuva de Páscoa, escrito em russo em 1925 e recentemente descoberto e traduzido para inglês por Dmitri Nabókov. Com tradução do grego de Manuel Resende, descobrimos Um Grego Antigo de Hoje, de Kostas Takhtzis, autor ainda desconhecido entre nós . De Natalia Ginzburg publica-se pela primeira vez em Portugal um conto, A Mãe, retirado de Cinque romanzi brevi e altri racconti, em tradução de Clara Rowland, e dá-se a conhecer Giuseppe Pontiggia como contista, traduzido por José Lima, com Viagem à Nascente do Nilo, parte do extraordinário Vidas de Homens Não Ilustres. Por fim, uma nova autora, americana vivendo em Portugal, Mary Lydon, traduzida por José Lima, trata com humor e serenidade, o magno tema das obras em casa.
A vitalidade eléctrica do norte-americano Keith Haring numa exposição para ver na Culturgest do Porto.
William Burroughs assinalou um dia a "tremenda vitalidade eléctrica" das ilustrações de Keith Haring (4 de Maio de 1958, Reading, Pensilvânia - 16 de Fevereiro de 1990, Nova Iorque). O artista conheceu o escritor de "Festim Nu" - livro reeditado recentemente com uma notável tradução de José Luís Luna - no apartamento nova-iorquino de Victor Bockris, em 1983. Contudo, o interesse de Haring pelas técnicas de representação utilizadas por Burroughs e Brion Gysin vinha de finais dos anos 70, quando, enquanto estudante, participou na Nova Convention, organizada por John Giorno, James Grauerholz e Sylvère Lotringer. Segundo o pintor, os símbolos não-verbais criados por si podiam ter diferentes significados em diferentes épocas: "E tudo fazia referência a tudo; foi isto que aprendi a partir dos 'cut-up' de Burroughs."
A exposição do Porto é formada por 25 trabalhos realizados entre 1980 e 1982 - e o início dos anos 80 são marcantes para a carreira de Haring, pois é nessa altura que não só começa a ganhar consistência o seu estilo, mas também acontece quer a célebre exposição individual na galeria nova- iorquina Tony Shafrazi, quer as pinturas dos corpos de Bill T. Jones e de Grace Jones. Nesse tempo em que a festa, as drogas e o sexo eram sem limites e o mercado da arte crescia com a entrada de dinheiro fresco, o artista torna-se uma figura incontornável dos acontecimentos sociais, entrando as suas obras nas colecções de Andy Warhol, Elton John e David Bowie.
A chegada a Nova Iorque, em 1978, com apenas 20 anos, vai transformar definitivamente a vida de Haring, que na adolescência era um hippie fã dos Grateful Dead. Na "grande maçã", o artista habita um apartamento em Greenwich Village, em Nova Iorque, e frequenta a School of Visual Arts, onde tem como professores Keith Sonnier, Joseph Kosuth e Barbara Kruger, entre outros. Ali, conhece Kenny Scharf e Jean-Michel Basquiat, Madonna e Roy Lichtenstein, entre outros, e vai aos concertos punk do CBCG, por onde passam os Ramones, Patti Smith, Blondie ou os Talking Heads. E, para completar a vertigem, passava as noites no Anvil, um bar sado-masoquista, no Mudd Club, no Paradise Garage ou no Club 57, onde chega a fazer "performances" que envolviam declamação de poemas e projecção de vídeos.
O metro e as ruas de Nova Iorque forneceram também a inspiração para os primeiros trabalhos que Haring realiza, ilegalmente, nas estações subterrâneas - as centenas de "graffitis" espalhados pelo Lower East Side, Bronx e Manhattan eram sobretudo influenciados pelos murais que os The Fabulous 5ive, colectivo fundado nos anos 70, pintavam nas carruagens do metro. Outras heranças que podem ser observadas no trabalho do artista vão da arte primitiva à caligrafia chinesa, das culturas azteca e maia aos nomes de Alechinsky, Dubuffet e Mark Tobey, passando ainda pelas criações dos aborígenes australianos e pelos mandalas budistas. É na pista de dança, porém, que nascem as ideias para uma série de obras maiores do artista, como a série Os Dez Mandamentos, pintada por ocasião da sua primeira retrospectiva, realizada no CAPC de Bordéus, França, em 1985.
É ainda nos anos de aprendizagem que Haring define a sua assinatura ("tag"), formada por um animal, "The Dog", e uma pessoa de gatas, "The Baby". De resto, as figuras estilizadas - pirâmides, discos voadores, figuras humanas, anjos, ecrãs de televisão, animais, bebés, etc. - vão nascendo e dando corpo a preocupações relacionadas com diversos temas: meios de comunicação electrónicos, computadores, televisão, filmes, drogas, doenças, desastres ambientais, ovnis ou explosão demográfica. A urgência em denunciar o domínio do humano pela sociedade do espectáculo era uma das intenções de Haring, um anti-republicano que, um dia, pinta Ronald Reagan associado ao número do diabo, 666. O activismo político era mesmo uma das facetas do artista, que realizou trabalhos relacionados com campanhas de informação e combate à sida, ao "crack" ou à iliteracia.
"Tudo era muito sexual", notou Bill T. Jones quando Haring lhe pintou o corpo com traços brancos. Na exposição da Culturgest, essa é uma das dimensões mais evidentes, quer através de imagens explícitas de sexo anal e oral, quer pela sedução febril com que as obras tentam o espectador. Em 1982, a exposição na Tony Shafrazi, no Soho, era composta por desenhos, esculturas e uma instalação "site specific" - na mostra era visível o espírito do tempo ("breakdance", rap, "graffiti", liberdade sexual e multiculturalismo). No Porto, passados cerca de 20 anos, as obras revelam um passado vivido sem regras e que terminou com a proliferação da sida - Haring foi uma das vítimas - e com a guerra do Golfo. Pouco antes de morrer, em entrevista à revista "Rolling Stone", o artista, então mundialmente consagrado e com o trabalho transformado em produto de "marketing" por conselho de Warhol, dizia: "Não importa quanto tempo se trabalha, algum dia as coisas acabam. E haverá sempre coisas por finalizar. Não importa se se vive até aos 75 anos, existirão sempre novas ideias. Haverá sempre coisas que se desejava ter concluído. Pode trabalhar-se por várias vidas... Parte da razão pela qual a realidade da morte não me perturba é que ela não é uma limitação, é uma via. Podia ter acontecido a qualquer momento e vai acontecer algum dia. Se se vive a vida de acordo com este princípio, a morte é irrelevante. Tudo o que faço agora é exactamente aquilo que queria fazer."
Keith Haring
PORTO
Culturgest.
Edifício Sede da Caixa Geral de Depósitos - Avenida dos Aliados 104.
De 2ª a sáb., das 10h às 18h. Tel. 22 2098116. Até 17 de Abril.
A Cidade de Deus de Fernando Meirelles tem levantado muita polémica.
MV Bill, o rapper da Cidade de Deus, acusa o realizador de ter aumentado o estigma contra os moradores da comunidade que serviu de cenário para a produção. "O filme não trouxe nada de bom para a favela. Ele explorara as imagens das crianças. Estereotiparam como ficção e venderam como verdade". disse.
Fernando Meirelles rebate dizendo que o filme ajudou a "levantar a questão da exclusão social no país mais uma vez. Informou a sociedade mostrando um ponto de vista que ainda faltava. Junto com Cidade dos Homens, jogou alguma luz sobre o problema da favela. Se hoje o Bill consegue mobilizar o prefeito do Rio ou o Hermano Viana do Ministério da Cultura, isso se deve um pouco ao filme também".
Por fim (será?) Ailton Batata, o único sobrevivente da guerra entre traficantes que arrasou o bairro de Cidade de Deus nas décadas de 70 e 80, não foi consultado sobre a história e pretende agora mover uma acção judicial contra o realizador
é o novo ciclo de cinema organizado pela zero em comportamento
Tóquio | Dia 31.01 e 3.02 |Akira de Katsuhiro Otomo
Madrid | Dia 4 e 6 | Em Carne Viva de Pedro Almodóvar
Lisboa |Dia 7 e 10 | Recordações da Casa Amarela de João César Monteiro
Paris | Dia 11 e 12 | Não Dou Beijos de André Téchiné
Hong Kong | Dia 13 e 14 | Anjos Caídos de Wong Kar Way
Barcelona | Dia 17 e 18 | En Construccion de José Luis Guerín
Londres | Dia 19 e 20 | Nu de Mike Leigh
Roma | Dia 21 e 24 | Querido Diário de Nanni Morett
Veneza | Dia 25 e 26 | Senso de Luchino Visconti
Rio de Janeiro | Dia 27 e 28 | Cidade de Deus de Fernando Meirelles
Sessões às 17h00, 19h15, 21h45
(excepto "Naked" e "Cidade de Deus", às 16h30, 19h15, 21h45)
posted by Anónimo on 21:49
Cinemateca no Porto!
É o que diz o ministro da cultura ao JN:
Lei do cinema implica alterações profundas
A lei de apoio ao audiovisual vai mexer com as estruturas já existentes e deverá ser apresentada este mês. É um dossiê quente da actualidade, sobretudo com as dívidas das televisões ao ICAM a ficarem acertadas. Novidade absoluta é a extensão da Cinemateca aoPorto, que acontecerá no curso de 2003.
De acordo com a nova lei do cinema, que critérios pautarão os concursos? Há uma profunda alteração. O trabalho preparatório, em termos de lei, já existe. É um anteprojecto de lei para o cinema e audiovisual, para os mecanismos de apoio. Está em fase de apresentação pública.
A Cinemateca de Lisboa poderá ter pólos no país? Estamos na fase de anteprojecto e já há infra-estruturas para a existência de um pólo no Porto.
Ainda este ano? Espero que sim. Não é difícil, porque a fusão do IPAE com o IAC obrigou-nos a reequacionar tudo – a Casa das Artes estava integrada no IPAE. A sua actividade mais adequada é o cinema. Esse equipamento pode vir a resultar no pólo da Cinemateca no Porto, permitindo complementaridade com projectos que lá são desenvolvidos. Vamos ouvir o presidente da Cinemateca e proceder à alteração legislativa.
Num concurso de apoio ao cinema, foi acusado de devolver duas vezes a decisão do júri para privilegiar José Fonseca e Costa em detrimento de Leonel Vieira. Devolveria cem vezes. Havia a suspeição de decisões subjectivas. Fiz a minha obrigação. Aquilo era uma confusão e o Estado tem que ser claro e rigoroso. Não me importo de ser criticado por isso.
No século XIX, dois portugueses decidiram escrever um guia da língua inglesa. Um problema: eles não sabiam falar inglês. O resultado, "English as she is spoke", é uma hilariante colecção de disparates que poderia ter sido escrita por Lauro Dérmio. Uma reedição recente nos EUA esgotou-se num ápice.
José da Fonseca e Pedro Carolino são ilustres exemplos da criatividade portuguesa. Em meados do século XIX, estes dois lusitanos decidiram escrever um guia de conversação da língua inglesa, uma espécie manual de frases úteis em inglês para viajantes. Fonseca e Carolino não sabiam falar inglês, mas isso não os deteve.
A intrépida dupla também não se deixou abater pelo facto de não terem uma gramática ou um dicionário de inglês-português. Munidos apenas de um dicionário de inglês-francês e outro de francês-português, Fonseca e Carolino lançaram-se à empreitada. Em 1855, o fruto do seu labor foi editado - um tomo com o impagável nome "English as she is spoke".
O nome já diz tudo. "English as she is spoke" é um manual de inglês de uma incompetência verdadeiramente milagrosa, repleta de pérolas como "we are in the canicule". O livro parece ter sido escrito por um Lauro Dérmio "avant la lettre".
"English as she is spoke" teve uma edição muito limitada, mas os poucos que o leram ficaram fascinados. Por algum feliz acaso, uma cópia chegou às mãos de um dos grandes artistas da língua inglesa do século XIX, Mark Twain, que escreveu sobre a obra: "Ninguém pode melhorar o absurdo deste livro, ninguém o conseguiria imitar com sucesso, ninguém pode produzir algo que se lhe compare. É perfeito na sua absoluta estupidez."
"English as she is spoke" angariou mais adeptos deste lado do Atlântico. No final do ano passado, a revista literária "McSweeney's" decidiu reeditá-lo, prestando a devida homenagem a um sério candidato ao título de pior livro de todos os tempos. Esta edição foi um sucesso tal que se esgotou quase de imediato.
Não é preciso um grande conhecimento de inglês para apreciar "English as she is spoke". Os seus maus tratos à língua de Shakespeare vêm nos sabores mais variados. Há calinadas ortográficas que, noutro contexto, podiam ser entendidas como meras "gralhas" - "You interompt me", "Do you know they?".
Mas o uso dos tempos verbais não deixa dúvidas quanto à sapiência de Fonseca e Carolino: "Have you understanded?"; "Don't you are awaken yet?"; "I am catched cold"; "Since you not go out, I shall go out nor I neither"; "He was wanting to be killed".
A secção mais divertida do livro é a de provérbios e expressões comuns, na qual os autores parecem ter simplesmente pegado em expressões portuguesas e presumido que, traduzindo as palavras, a frase continuaria a fazer sentido. Por exemplo, Fonseca e Carolino devem ter começado com "que eu morra se estou a mentir", e acabaram com "that may dead if I lie to you".
Há ainda exemplos de puro surrealismo, em que é difícil perceber o que é que os autores estariam a tentar dizer. "The ears are too length"; "Take attention to cut you self" "Will you fat or slight?"; "Nothing some money, nothing of Swiss."
Como diriam os autores, dá para acreditar? ("One's can to believe you?") A única questão que fica por responder é se Fonseca e Carolino julgavam estar a escrever um livro sério, ou se eram apenas dois brincalhões com um sentido de humor bizarro.
É duvidoso. Que imaginação conseguiria aconselhar um turista em Inglaterra a num restaurante pedir bebidas ("drinkings") e um prato de "hedge-hog" (ouriço-cacheiro em inglês normal, mas um marisco em "English as she is spoke"), e se a refeição corresse mal avisar os outros convivas de que "I have mind to vomit"?
Só a mesma que, no capítulo destinado a expressões idiomáticas ("idiotisms"), cita o seguinte provérbio inglês: "Few, few the bird make her nest."